sábado, 17 de setembro de 2011

PARA SABER MAIS…
 A ESPECIFICIDADE DA PSICOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA

Normalmente, as ciências são classificadas em ciências naturais ou da natureza e ciências sociais e humanas. A questão que se coloca aqui é a da integração da Psicologia num desses grupos. Essa não é uma tarefa fácil. Porquê? Porque a Psicologia abarca áreas de estudo dos dois tipos de ciências, embora seja muitas vezes integrada nas ciências sociais e humanas. Os psicólogos estudam, no comportamento humano, aspectos biológicos e aspectos sociais. Os psicólogos, nomeadamente os psicofisiologistas ou psicobiólogos, estudam sobretudo as relações entre a Biologia e o comportamento e os processos mentais. Aos sociólogos interessam sobretudo os grupos sociais, enquanto a Psicologia se interessa principalmente pela influência do meio social no comportamento do indivíduo.

O facto de a Psicologia se relacionar com muitas ciências mostra a sua complexidade. Por isso mesmo, temos de ter em consideração dois aspectos importantes: a importância do contributo dessas diferentes ciências, para que possa obter-se um melhor conhecimento do seu objecto, o comportamento e os seus processos mentais, que abarca várias dimensões. Isto significa que esse objecto de estudo abarca temas muito diversos, o que dificulta a conjugação de teorias e métodos.
Outro aspecto que caracteriza a complexidade da Psicologia, e que é partilhado por todas as ciências humanas e sociais, é o facto de o seu objecto de estudo ser de díficil análise. Não podemos fazer determinadas experiências com seres humanos como podemos fazer com rochas ou plantas, por exemplo. Não é correcto, do ponto de vista ético ou moral, colocarmos crianças à fome por vários dias apenas para sabermos como reagem a essa privação; assim como afastarmos os pais dos filhos para estudarmos o desenvolvimento das crianças longe dos pais. Isto significa que o estudo experimental em seres humanos tem limites, há dimensões éticas a ter em consideração. Há ainda o facto de o ser humano poder apresentar factores inesperados, pois é dotado de vontade, de sentimentos, de desejos, que são difíceis de prever.


A Psicologia é marcada por uma certa subjectividade, uma vez que quer o psicólogo quer o seu objecto de estudo são seres humanos. Isto significa que pode haver interferências na investigação, devido a crenças, desejos, interesses e perspectivas pessoais. Deve, portanto, realizar-se um esforço para se ultrapassar isso. Há a crença geral de que, como somos seres humanos, compreendemos o comportamento humano. Mas esse conhecimento faz parte do senso comum, sendo incorrecto, inexacto e, por isso, deve ser questionado.
O conhecimento é um processo. Este processo muitas vezes não é linear, pelo contrário, é muitas vezes constituído por tentativas e erros. Isto significa que o conhecimento científico é revisível, não é definitivo e dogmático. É elaborado com o contributo de muitos cientistas. E todos os contributos são importantes. Com um pensamento único não há avanço no conhecimento.

Encontramos diferentes interpretações e teorias quanto ao método, ao objecto e aos objectivos da Psicologia, o que significa que não há uma uniformidade. Também não há acordo quanto ao facto de se estudar com o objectivo de conhecer o comportamento humano, já que nem todos concordam que há semelhança entre um e outro. Ao longo da história da Psicologia surgem vários autores que têm diferentes perspectivas sobre o que a Psicologia deve estudar e como. Mesmo nos nossos dias há diferenças quanto a isso. Vejamos então em que consistiu o processo de criação da Psicologia como ciência, tentando compreender o contributo de alguns autores mais significativos. É o que faremos um pouco mais à frente.
Fátima Reis (adaptado)

O que é a psicologia